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27 de fevereiro de 2015

Um jantar nas estrelas




Depois de alguma ausência a Ana reabriu a padaria e com ela trouxe o "Convidei Para Jantar" de volta. Fui apanhada de surpresa pelo tema que marca a rentreé: "ailavius". Sim, aqueles "ailavius" ou "ailabius" à moda do Norte, que nos fizeram suspirar na adolescência. Confesso que fiquei bastante indecisa, porque sempre tive os meus ídolos, sim, mas não nenhum tão em particular que me levasse a suspirar e a comprar todas as revistas onde aparecesse. Era, assim, mais de fantasias. A realidade cá e a fantasia lá com os meus ídolos. Como adorava ver televisão e sonhar com aventuras, foi aí que recaiu a minha escolha, inspirada por uma noticia que me fez regressar um bocadinho á adolescência.

***

Terá Rita Redshoes fotografado um ovni a pairar sobre a Serra do Pilar? A noticia começou com uma inocente fotografia da minha tão linda cidade do Porto e da não menos bonita ribeira de Gaia publicada por Rita Redshoes na sua página do facebook. Na foto, junto à Serra do Pilar vêm-se três pontos luminosos no céu que depressa suscitaram a dúvida sobre o que seriam e a hipótese de um OVNI rapidamente se colocou, iniciando-se o habitual arraial de comentários entre crentes e não crentes que estas matérias costumam suscitar.

Eu sorrio. Não, não sou daquelas pessoas que crê que estamos sós na imensidão deste Universo de quem ninguém conhece os limites e que nos permite a fantástica experiência de admirar a luz de estrelas que já morreram. Sim, já pensaram nisso? O tempo no espaço mede-se em anos luz, por isso quando uma estrela nasce ou morre a noticia só nos chegas muitos anos luz depois. Sorrio também porque se agora admito a hipótese de vida para além da Terra, na minha adolescência, que atravessou os fantásticos anos 80, não era uma hipótese. Era uma certeza. Ora, esses anos 80 passeio-os entre os estudos, as leituras (lia avidamente todos os livros que me caiam nas mãos, literalmente, desde "Os Cinco"  a "Madame Bovary"), a música  (ainda guardo cassetes com as musicas que gravava da rádio) e a televisão e aqui, claro, no topo da eleição estavam as séries de ficção cientifica que exacerbavam  a minha imaginação. Não era miúda daqueles "ailabius" de andar sempre a suspirar e a beijar os posters que colava na parede do quarto (atrás da porta, só), mas tinha a minha quantidade de ídolos entre artistas do pequeno e do grande ecran e artistas musicais e  entre uns e outros os primeiros ganhavam aos pontos. Talvez porque estivessem no patamar da fantasia e para mim fizesse mais sentido suspirar "ailabius" por personagens em vez das pessoas que os encarnavam, já que essas estavam definitivamente longe, muito longe, da minha realidade.

Estava eu de volta dos tachos, com estes pensamentos e memórias, sorrindo para comigo (lá estou eu a sorrir), quando a Nikita começou a cheirar por baixo da porta de entrada e a rosnar ligeiramente. Ora, a Nikita não rosna, por isso o que é que se passa? Começo a ouvir passos, um estranho som quase metálico, depois mais passos. Naturalmente assustada chamo o D. e entretanto fez-se silêncio. A Nikita deixa de rosnar e começa a abanar a cauda.  A campainha toca. O D. abre a porta cautelosamente, deixando a Nikita à vontade, ela tem reações tão prontas e expressivas que corre com qualquer um. Lá fora dois sujeitos de fatiotas estranhas (mas o carnaval já não passou?)



   - Please, don`t be affraid! We are in peace!

Arregalo os olhos: Capitão Apollo? What!? Am I going crazy? Estarei a enlouquecer? Olho para o D. e pela expressão dele vejo que não, não estou louca. Acabamos por ouvir o que nos tinham para dizer: como eu sabia (sim, eu sabia), tinham feito uma longa jornada em busca do nosso planeta. A terra prometida para os sobreviventes da guerra contra os Cylon, a quem, finalmente, haviam derrotado. Mas alguns desses seres terriveis tinham também conseguido alcançar o planeta Terra e embora tivessem conseguido capturá-los quase todos, havia ainda um foragido que se atrevera a passar pelo nosso jardim. Apollo e Starbuck  vinham no seu encalço e Apollo havia ficado para trás para  nos avisar para termos cuidado. Entretanto, Starbuck aparece, ofegante, tinha recebido a comunicação via rádio de que o malvado Cylon havia sido encontrado e capturado. Regozijaram-se de alegria e como o dia começava a cair e os meus heróis pareciam cansados, acabamos por os convidar para jantar, afinal o arroz já estava no forno e que melhor que um prato quente para recuperar forças.


Desculpei-me pela simplicidade da refeição, a verdade é que não estava à espera de convidados, mas ainda bem que nessa noite o jantar era um prato farto. D. levou-os para a sala, sempre seguidos pela Nikita aos saltos, serviu-lhes um Porto, que apreciaram e começaram a contar as suas aventuras em busca desta colónia de humanos chamada Terra, confessando que quase haviam perdido a esperança quando a nave Battlsestar Galactica teve uma avaria no seu sistema de navegação e acabou por entrar neste sistema solar. Foi um mero acaso, mas um feliz acaso. "Mas que feliz acaso!!" pensei eu, ter o capitão Apollo (Richard Hatch) sentado na minha sala de estar ... Entre o sentido de humor sempre espirituoso de Starbuck (Dirk Benedict) e o cavalheirismo de Apollo, passamos umas agradáveis horas de conversa. Estávamos siderados com o que nos contavam acerca de outros mundos. Chegou a hora de partirem. Agradeceram o jantar e a hospitalidade. Tinha sido um começo auspicioso, disseram. Agora tinham que se reunir com os demais sobreviventes e procurar, no nosso planeta, um lugar para recomeçarem. Afinal sempre tinha sido esse o objectivo da grande viagem. Desejamos-lhe sorte e esperávamos que conseguissem ter aqui a melhor das vidas. Desapareceram, a pé, pela rua, sem saber que as suas aventuras já eram conhecidas e que até tiveram honra de foto na parede do quarto de uma adolescente. O céu estava limpo e estrelado. Hum...quanta vida poderia haver para além das estrelas?  



Arroz de Pota*Ingredientes:
1 tentáculo de pota grande ou 2 pequenos congeladas (e previamente descongeladas)
1 copo de vinho tinto
1 folha de louro
1 cebola pequena, picada
1 dente de alho, pelado e esmagado
1 cenoura pequena, descascada e cortada em cubos
1 tomate maduro, pelado e sem sementes
1/2 chávena de miolo de camarão (previamente descongelado)
100 gr. de ervilhas congeladas
1 chávena de arroz
2 chávenas de liquido (água da cozedura+água quente)
Azeite q.b.
Sal q.b.
Salsa para servir



Preparação:
Comece por cozer a pota na panela de pressão, juntamente com o vinho e a folha de louro. Conte cerca de 20 minutos a partir do momento em que o vapor começa a soltar-se. Deixe sair todo a pressão da panela antes de a abrir (coloque a panela debaixo de uma torneira com água fria a correr durante uns segundos, feche a torneira e depois retire a "bailarina", sempre com cuidado, claro, para soltar o resto da pressão e abra a panela), verifique se está cozido. Reserve o liquido da cozedura.
Corte os tentáculos em pedaços pequenos. Reserve.
Pré-aqueça o forno a 180º.
Num tacho aloure, num fio de azeite, a cebola, o alho, a cenoura e os camarões. 
Quando a cebola estiver translucida, junte o tomate e deixe refogar mais uns minutos, envolvendo e esmagando, com a colher de pau, os pedaços maiores, acrescente um pouco do liquido da cozedura reservado e deixe fervilhar.
Acrescente então a restante água e deixe, novamente, levantar fervura.
Junte a pota e as ervilhas. As ervilhas congeladas vão baixar a temperatura da água, por isso deixe ferver mais uma vez antes de acrescentar o arroz, que deverá envolver delicadamente.
Deixe ferver em lume médio alto por 2 ou 3 minutos.
Transfira o arroz para uma travessa de forno (ou use desde o inicio um tacho que possa ir ao forno) e leve a acabar de cozer no forno.



16 de maio de 2013

O meu restaurante de sonho

Não podia ter sido mais interessante a escolha da Manuela para esta edição do ”Convidei para jantar”. A verdade é que, cada vez com mais frequência, eu e o D. comentamos como é difícil encontrar um restaurante que nos encha as medidas (e não nos depene a carteira, claro). Mesmo de entre aqueles que frequentamos mais vezes, saímos sempre com uma triste sensação de insatisfação e chegamos sempre à mesma conclusão “theres no place like home” que é como diz o melhor restaurante fica…em nossa casa. Não é um restaurante de sonho, por isso. É um restaurante real onde as portas se abrem, de par em par, à família e a todos os amigos, reais ou virtuais. É um restaurante pequeno, mas ainda assim podemos escolher entre o terraço, nos dias de sol e sem vento, onde os olhos nos fogem constantemente para o mar e a sala aconchegante envolta em música calma. Podemos escolher entre um simples grelhado na brasa ou um assado mais elaborado ou só uns petiscos e uma boa conversa à volta da mesa. É um restaurante onde procuramos servir bons ingredientes. Embora o supermercado seja o nosso principal local de abastecimento, sempre que possível escolhemos comprar a pequenos produtores de acordo com os produtos da época. Tivemos sorte, por isso, para este jantar: o coelho caseiro e de proveniência de confiança foi temperado com as ervas que recentemente adquirimos para um pequeno quintal suspenso de aromáticas.

Por isso, hoje abro-vos a porta de minha casa para vos receber cheia de alegria. Entrem, pousem os casacos e as malas, sintam-se à vontade como se devem sentir entre amigos.
Agora que os dias estão mais compridos podemos deleitar-nos com a réstia do sol sobre o mar, pena é que o dia se tenha posto um pouco ventoso, porque gostaria muito de pôr a mesa no terraço, mas vamos ter que jantar no aconchego da sala.


O que tenho para vos oferecer é uma refeição simples, com sabores que muito apreciamos e espero que sejam também do vosso gosto.

Sugestão da chefe

Entradas:
Meia lua de requeijão com doce de abóbora e noz


Ingredientes:
1/2 requeijão por pessoa
2 colheres de sobremesa generosas de doce de abóbora
Preparação:
Coloque o requeijão  no meio do prato e cubra com o doce.

Espargos salteados com lascas de presunto


Ingredientes:
1 molho de espargos
Tiras de presunto
1 dente de alho
Azeite q.b.
Preparação:
Corte a ponta mais grossa dos espargos.
Coloque ao lume um tacho com água e sal e deixe levantar fervura.
Junte os espargos e quando a água voltar a ferver conte 3 a 4 minutos conforme a grossura dos espargos.
Coe e passe gentilmente por água fria para parar a cozedura.
Entretanto, esmague o alho e coloque-o numa frigideira com o azeite. Quando o azeite estiver quente junte os espargos e salteie-os.
Coloque-os no centro do prato e á volta o presunto lascado.

Prato principal:
Coelho na brasa com arroz de cenoura e favas


Para o coelho:
Ingredientes:
1 coelho limpo e preparado para grelhar
3 dentes de alho grandes
5 hastes de tomilho (só as folhas)
2 colheres de chá de sal
1 pitada de mistura de alho e gindungo Espiga
Preparação:
Comece por temperar o coelho com 3 a 4 horas de antecedência: pique os dentes de alho bem picados e coloque todos os ingredientes do tempero num almofariz. Esmague bem até quase obter uma pasta. Barre o coelho com o tempero e reserve no frigorifico.
Leve a assar lentamente na brasa.


Para o arroz:
Ingredientes:
1 chávena de arroz carolino
2 chávenas de água quente
½ cebola picada
1 dente de alho pequeno com pele esmagado
1 cenoura descascada e cortada em cubos
1/2 chávena de favas descascadas (sem a camisa)
Sal e azeite q.b.
Preparação:
Num tacho coloque a cebola e o alho e regue com azeite.
Deixe alourar em lume brando até a cebola começar a estalar, mas sem dourar.
Junte a água quente, tempere de sal e, em lume forte, deixe levantar fervura.
Acrescente o arroz, a cenoura e as favas, envolva e tape o tacho. Reduza o lume para calor médio e quando a calda começar a ferver novamente reduza para o mínimo. Deixe cozer o arroz, o que deve demorar cerca de 12 a 15 minutos.

Sobremesa:
Folhados de maçã




Ingredientes:
1 maçã fuji para cada 2 folhados
Marmelada de maçã q.b. (caseira)
Açúcar q.b.
Preparação:
Pré-aqueça o forno a 180º.
Descasque as maçãs, corte-as em fatias finas e regue com sumo de limão
Dobre a massa folhada na diagonal, apenas para marcar o meio e volte a abrir o quadrado por completo.
Com uma faca afiada dê três golpes a meio de uma das metades, para criar aberturas na massa. Sobre a outra metade coloque uma fatia de marmelada de maçã, fatias de maçã (tantas quantas puder e polvilhe com cerca de 1 colher de café de açúcar.
Feche o folhado sobrepondo a parte golpeada sobre o recheio e com os dedos faça pressão sobre as beiras para que sele. Polvilhe com mais um pouco de açúcar e leve ao forno sobre uma folha de papel vegetal até a massa estar dourada.
Sirva morno e para os mais gulosos acompanhe com natas batidas ou uma bola de gelado de nata.

Bebidas:
Refresco de chá de roobois e frutos do bosque (morno ou frio)


Ingredientes:
1,5lt de água
½ laranja cortada em meias luas
½ limão cortado em meias luas
6 morangos limpos e cortados em pequenos pedaços
1 garrafa de água gaseificada
Açúcar a gosto
Preparação:
Pela manhã  faça o chá de Roobois com frutos do bosque. Deixe arrefecer e coe para uma jarra. Acrescente a água gaseificada, adoce a gosto e junte as frutas. Leve ao frigorifico até à hora de servir ou retirando um pouco antes se os convidados preferirem uma bebida menos fresca.

 E, assim, participo em mais uma edição do "Convidei para jantar", iniciativa do blogue "Anasbageri - A Padaria da Ana",  desta vez recebido pela Manuela do "A minha Cozinha é a Cores" sob o tema "Convidei para jantar no meu restaurante de sonho...".

16 de abril de 2013

Convidei para jantar - Maria Helena Vieira da Silva



Nasceu a 13 de Junho de mil novecentos e oito e cresceu no meio de infância solitária, sem crianças da sua idade para brincar, mas nem por isso deixou de dar largas à sua imaginação. Maria Helena Vieira da Silva, cresceu rodeada de adultos, mas o seu dom artístico começou a revelar-se bem cedo e apenas com onze anos começa a receber, em casa, aulas de desenho, pintura, modelagem e música. Este inicio empurrou-a para uma vida inteiramente dedicada às artes.
Casa com Arpad Szenes, também pintor, e perde a nacionalidade portuguesa, mas o casal divide a sua vida entre Paris e Lisboa, até que com o ameaçar da guerra decidem regressar definitivamanente a Portugal. Por pouco temo, no entanto, porque é recusada a nacionalidade portuguesa a Maria Helena. O casal refugia-se então no Brasil durante quase uma década. Em nenhum destes momentos a arte ficou esquecida. Não só Vieira da Silva, mas também Arpad Szenes alcançam uma fama e reconhecimento excepcionais no mundo das artes. Em 1956 Maria Helena é naturalizada francesa, mas é em Lisboa que escolhe, após a morte do marido,instalar a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.

Maria Helena Viera da Silva acabou por falecer antes da abertura ao público da Fundação. Ficou o génio artístico desta mulher que traçou geometrias em telas, linhas, riscos, cores. Emanharados abstractos que poderiam ser imagens duras, mas são tão etéreas que apetece mergulhar, tal fosse possível, nos seus quadros e percorrer todos os labirintos.  


La bibliothèque en feu (A biblioteca em fogo) 1974

Para receber esta ilustre convidada, cujo trabalho tanto me fascina servi um doce tão etéreo como as suas obras. Um molotoff que se desfaz na boca a cada colherada.





Fonte: "Mesa para 4"
Ingredientes:
Para o Molotoff:
5 claras
6 colheres de sopa de açúcar
1 pitadinha de sal ou umas gotas de sumo de limão
Margarina q.b.
Para o caramelo:
100 gr. de açúcar
3 colheres de sopa de água + 80 ml.

Preparação:
Comece por preparar o caramelo:
Num tacho pequeno deite o açúcar e as 3 colheres de sopa de água.
Leve a lume médio/baixo, sem mexer, até o açúcar derreter e se apresentar com uma cor de caramelo bem dourado.
Cuidadosamente, para evitar salpicos do caramelo a ferver, acrescente a restante água e reserve.
O Molotoff:
Comece por untar uma forma com buraco abundantemente com margarina ou manteiga.
Pré-aqueça o forno a 180º.
Bimby:
Coloque a borboleta no copo, deite as claras com o sal ou o sumo de limão, retire o copinho da tampa e programe 5 minutos/vel. 3 1/2.
Mantendo a bimby a trabalhar na velocidade 3 vá acrescentando o açúcar e, por fim, cerca de 50 ml do caramelo liquido, misturando muito bem.
Tradicional:
Com a batedeira bata as claras, juntamente com uma pitada de sal ou sumo de limão, em castelo firme. Mantendo a batedeira ligada vá acrescentando o açúcar aos poucos e, por fim, cerca de 50 ml do caramelo liquido, misturando muito bem.

Deite as claras na forma, alise-as e bata a forma sobre a bancada para retirar as bolhas de ar.
Leve ao forno durante 5 minutos. Desligue e deixe o molotoff arrefecer dentro do forno.
Quando estiver frio, passe uma faca afiada entre o molotoff e a forma para desenformar e regue com o restante caramelo.


Participo, assim, em mais uma edição do Convidei Para Jantar, projecto iniciado pela Ana e recebido, desta
vez, em casa do blogue "Panela sem (de)pressão".

14 de março de 2013

Palavras que são imagens ou imagens que são palavras



 As palavras lêem-se e vêem-se, gritam-se, cantam-se. Brincamos com elas. Compomos anagramas. Cruzámo-las. 
Num dos meus livros de leitura, não sei se ainda da escola primária ou de outra fase mais avançada na escola, aparecia um texto que era também um desenho.
As letras sempre me fascinaram, aprender a ler foi uma aventura maravilhosa que nunca pus de lado e aquele texto, que era um desenho de palavras, ficou gravado na minha memória. Com o tempo perdi-lhe as palavras e até a forma, mas a imagem de um texto diferente gravada no papel nunca desapareceu. Era um poema que era um desenho ou um desenho que era um poema.
Anos mais tarde soube que era "poesia experimental". Um movimento de vanguarda no seu tempo, mas que acabou por cair no esquecimento e se não fosse a exposição "O Experimentalismo em Português entre 1964 e 1980", patente ao público em 1999 no Museu da Fundação de Serralves, não teria tido o privilégio de trazer de volta essa memória e de aprender mais um pouco "destas coisas" das letras e das palavras.

O meu convidado é um poema de Salette Tavares: "Aranha":



E depois de tal emaranhado que tal uma fatia de FOGAÇA?

Ingredientes:
100 ml de água
20 gr. de fermento de padeiro (usei um pacotinho de fermento seco de 6 gr.)
1/2 colher de chá de sal
450 gr. + 100 gr. de farinha de trigo T65
2 ovos
200 gr. de açúcar (só usei 110 gr.)
raspa de 1 limão
20 ml de vinho do Porto (usei Moscatel)
70 gr. de manteiga derretida
1 gema de ovo para pincelar



Preparação:
Coloque no copo da Bimby a água, o fermento e o sal e programe 37º/2 min./vel2.
Junte as 100 gr de farinha e misture 15seg./vel 6 e deixe levedar durante cerca de 20 minutos.
Acrescente os restantes 450 gr de farinha, os ovos, o açúcar, a raspa de limão e o vinho do porto e amasse 3min. / vel. espiga.
Adicione a manteiga e amasse mais 2 min. / vel. espiga.
Se a massa não ficar com um aspecto homogéneo volte a amassar por 2 minutos. Se necessário acrescente 1 colher de sopa de água.
Retire a massa da bimby, forme uma bola, polvilhe-a com farinha e deixe a levedar num local morno até dobrar de volume (costumo deixar dentro do micro ondas ou, se quero apressar a levedação, dentro do forno ligado a 50º).
Com a massa faça um rolo, ligeiramente achatado, e comece a enrolar em forma de caracol, fazendo uma pirâmide. Rematei a ponta final no centro da massa.
Forre um tabuleiro com papel vegetal untado com manteiga e polvilhado farinha e deixe levedar novamente em local morno cerca de uma hora (mais uma vez uso o forno ligado a 50º).
Pré-aqueça o forno a 180º (se usou o forno para a levedação, retire a fogaça até a fornalha atingir a temperatura certa, mas mantenha em local longe de correntes de ar).
No topo da fogaça faça um corte em cruz (nasce, assim, as 4 torres do castelo) e pincele com a gema de ovo diluída numa colher de sopa de água fria.Leve ao forno a cozer durante cerca de 45 minutos.
Ao fim de 15 minutos e com a ajuda de uma faca para não se queimar, abra um pouco mais os cortes que fez, afastando-os, para que as "torres" fiquem mais pronunciadas. Se necessário cubra com papel de alumínio para que não queime.
Retire do forno e pincele com manteiga ou geleia (Ah...não se esqueça dela, senão sai assim mais escurinha, como a minha, mas nem por isso menos saborosa)

Com esta fogaça participo na 10ª edição do "Convidei Para Jantar", promovido pela Ana, do blogue Anasbageri e desta vez recebido pela Cristina do blogue "Come Chocolates, pequena," na sua belíssima confeitaria, que escolheu para convidado um poema a quem deveria ser servido um prato doce.


Acerca da poesia experimental vejam também aqui e aqui e se quiserem ler um pouco têm a "Antologia da Poesia Experimental Portuguesa".


16 de dezembro de 2012

Convidei Para Jantar - Uma cidade com pronúncia


Porto visto de Gaia
 Quando a Marmita lançou o desafio para a nova edição do "Convidei Para Jantar" percorri mentalmente as cidades que conheço e das quais guardo belas recordações. Passei pelas cidades portuguesas, de Bragança até Faro, passei pelas ilhas, entre as cidades do Faial e Angra do Heroísmo, passei pelas ruínas de Roma e pelo Carnaval de Veneza, subi à Torre Eiffel, atravessei o oceano para recordar a subtil decadência de Havana, de regresso dei um pulo a Espanha, balançando entre Madrid e Barcelona, mas em cada paragem havia um regresso esperado e ansiado e aí soube logo quem iria ser a minha convidada.


Ponto D. Luís I

Pormenor da Ponte D. Luís I

Não é novidade para ninguém, porque já aqui o disse, que tenho um sentimento especial pelo Porto. O Porto é a minha cidade, embora, verdade seja dita, nunca nela tenha vivido, mas é o prolongamento inevitável da outra margem - Vila Nova de Gaia. Polémicas e politicas à parte, para mim não há Porto e Gaia. Há duas margens unidas por uma ponte (ou seis pontes), porque durante toda a minha vida o meu sentido convergente natural era o Porto. 


O Porto também é um porto

Do outro lado, Gaia - Mosteiro da Serra do Pilar



























O Cubo da Ribeira, de José Rodrigues e S. João Baptista, de João Cutileiro

 

Aqui nasceu José Luís Gomes de Sá



Igreja de S. Francisco

 Num tempo pré-shoping, a baixa do Porto era o Centro Comercial mais procurado. Sempre que era preciso comprar tecidos, roupa ou sapatos, marcava-se o tradicional passeio de sábado de manhã para ir às compras e ver as montras. A viagem de autocarro durava cerca de 30 minutos (camioneta, era assim que chamávamos, autocarros eram só os da STCP), atravessava a ponte D. Luís e no fim guardava os bilhetes coloridos para coleccionar. Depois era a Rua de Santa Catarina e de 31 de Janeiro (antes de Stº António, o meu santo das aflições, que o S. João é o das folias), com as suas lojas de paragem obrigatória, a fervilhar de gente. As Galerias Palladium, um armazém ao estilo do El Corte Inglés, na esquina de Santa Catarina com a Rua Passos Manuel  (o edifício actualmente alberga a "C&A" e a Fnac e no seu relógio, a cada três horas, quatro personalidades que marcaram o Porto, S. João, Infante D. Henrique, Almeida Garret e Camilo castelo Branco, saúdam os transeuntes), com a sua secção de discos de vinil. As idas ao cinema no Natal, ora no Batalha (sim, o da expressão "vai no Batalha", isto é, "deve ser filme, não", quando alguma situação nos parece fantasiosa), ora no Águia Douro e o circo no Coliseu, a que fui uma vez e trouxe apenas a recordação dos cãezinhos amestrados. As pipocas a estalar e o algodão doce a derreter pela mão abaixo.

R. de Santa Catarina, numa manhã azul
 Enquanto estudante o Porto entrava no meu dia pela manhã, bem cedo. Recordo-me das tantas vezes que atravessei a ponde D. Luís a pé, tanto era o trânsito matinal, em manhãs frias a marcar 0º. Recordo-me de descer a rua 31 de Janeiro a correr para não perder o autocarro. De a voltar a subir a passo apressado para regressar a casa. E, quando já no mundo do trabalho, depois de me apear do comboio na estação de S. Bento, tantas vezes, nas manhãs vazias, conseguia escutar os meus passos na calçada, não obstante o ruído dos automóveis. Era eu e a cidade. Eu e o Porto. 

E se gosto de dias azuis, não posso deixar de gostar do Porto cinzento. O céu azul também lhe fica bem, mas há dias que até parece que demasiada luz lhe trespassa a alma e o Porto é uma cidade com alma e de gente de alma, arrebatadora como a pronuncia do Norte e como o granito que sustenta a cidade.


Torre dos Clérigos
Gosto de ser turista nesta cidade. De calcorrear as ruas e jardins, admirar os edifícios monumentais da Avenida dos Aliados, espreitar o mercado do Bolhão, e, nos dias mais gulosos, passar de propósito, sem qualquer desculpa, pela Padaria Ribeiro para comprar biscoitos, de comer um mini eclair de limão a acompanhar um café na Leitaria da Quinta do Paço ou um "Quente e Frio" na Gelataria Sincelo, ou, porque não, uma tarte de framboesa na Cunha. E se os dias não são gulosos, mas a fome aperta, um rissol na Império e se são de convívio uma francesinha no "Capa Negra". O Porto é gastronómico, aqui nasceu o famoso Bacalhau à Gomes de Sá e a dita Francesinha e o Porto é assim, uma cidade de bons comeres, provavelmente desde o dia em que o povo encheu as naus do Infante D. Henrique de mantimentos, ficando-se apenas com as miudezas dos animais e com as tripas. Deste acontecimento nasceu a alcunha de "tripeiros" e as famosas tripas á moda do Porto, iguaria que não aprecio de todo, mas, enfim, ninguém é perfeito, mas pior seria se não fosse portista.
 
Jardim da Cordoaria

Mercado do Bolhão
Sou eu assim, também, tripeira e com pronúncia do Norte e porque este desafio é um desafio de amigos, convido-vos a comer comigo, mais uma vez, uma francesinha, cuja receita deixo aqui novamente, mas com a pronuncia merecida (os "vês" pelos "bês", mas nem sempre o contrário).

O molho:
1 sopa de rabo de boi
1 sopa de creme de marisco
0,5 lt de polpa de tomate
0,5 lt de água
Sal q.b. 
50 gr. de Molho Inglês
Piri-piri q.b.
1 copo de whiskey
1 copo de bodka

Prepare as sopas separadamente.
Num tacho ou panela grande deite as sopas já preparadas e acrescente todos os restantes ingredientes. Deixe ferber em lume brando até o molho diminuir em quantidade e engrossar. Bá probando e acertando os temperos a seu gosto. Mais piri-piri, mais whiskey, teste outra bebida a seu gosto...

Entretanto prepare a Francesinha:
1 fatia de pão de forma (não muito grossa -  há quem prefira tostar o pão antes)
1 fatia de paio
1 fatia de fiambre
Bife grelhado
Linguiça grelhada
Mais fiambre
Outra fatia de pão
Agora cubra esta sanduiche com fatias de queijo e lebe, no prato em que bai serbir, ao forno pré-aquecido para derreter o queijo.
Cubra com uma quantidade generosa de molho e sirba.

Tenha cuidado para não queimar o queijo, o bife ou as linguiças e mesmo o pão, se decidir tostá-lo antes. Por muito bom que fique o molho é sempre desagradábel o sabor do "torrado".

Bom apetite e não se esqueça de chamar os amigos para esta iguaria que requer sempre boa disposição e companhia para ser bem serbida e apreciada.

15 de novembro de 2012

São rosas, Senhor, são rosas


Isabel chegou pontual. Ao observá-la questionei-me como é que era possível que uma mulher com um ar tão sereno e introspectivo tivesse o poder de impedir uma guerra colocando-se, corajosamente, entre os exércitos. Ela sorriu. "Temos que ter coragem para seguirmos os nossos desígnios", disse. E o o dela foi o de apaziguar guerras e dores. Sempre fez questão de acompanhar o seu marido, D. Dinis, nas viagens que ele fazia pelo país. Assim tinha a oportunidade de conhecer as condições em que o seu povo vivia e a oportunidade de ajudar quem mais precisasse. Deu o dote a muitas moças casadoiras e a educação aos filhos dos cavaleiros mais pobres. Não havia quem, passando a seu lado, não recebesse uma qualquer graça. Amainou a fome dos pobres e a as dores dos doentes, fazendo questão de tratar, ela própria, os mais enfraquecidos, mesmo contra a vontade do marido.
A conversa ia longa e eu cada vez mais rendida à força de carácter daquela mulher. Servi um chá acompanhado de uns muffins de abóbora com o formato de flor.
Quando servi ela sorriu-me: "São rosas".
"São rosas, sim, são rosas", respondi.

(Fonte: "Banking" de Dorie Greenspan)
Ingredientes:
2 chávenas de farinha de trigo
2 colheres de chá de fermento em pó
1/4 de colher de chá de bicarbonato de sódio
1/4 de colher de chá de sal
3/4 de colher de chá de canela em pó (usei uma colher de café rasa)
1/2 colher de chá de gengibre em pó (usei uma pitada, apenas)
1/8 de colher de chá de noz moscada ralada na hora (usei uma pitada de noz moscada em pó)
1 pitada de pimenta da Jamaica moída (não usei)
120 gr. (8 colheres de sopa) de manteiga sem sal, à temperatura ambiente
1/2 chávena de açúcar
1/4 de chávena de açúcar mascavado claro (usei escuro)
2 ovos grandes à temperatura ambiente
1/2 colher de chá de extracto de baunilha
3/4 de chávena de puré de abóbora sem temperos
1/4 de chávena de buttermilk (ou 1/4 de chávena de leite + 1 colher de sumo de limão ou vinagre)
1/2 chávena de uvas passas
1/2 chávena de nozes picadas (usei avelãs)
1/3 de chávena de sementes de girassol (opcional)
100 gr. de chocolate picado (opcional)
Raspa da casca de uma laranja (opcional)

Preparação:
Pré-aqueça o forno a 200º.
Prepare as forminhas dos muffins (usei formas de papel e uma forma de silicone em formato de flor). Se usar formas metálicas unte com manteiga ou óleo em spray.
Prepare o buttermilk: misture o leite e o sumo de limão ou vinagre e deixe descansar cerca de 10 minutos.
Numa tigela misture, com uma vara de arames, a farinha, o fermento, o bicarbonato, o sal e as especiarias e reserve.
Com a batedeira, bata a manteiga durante um minuto em velocidade média, até ficar cremosa.
Junte os açúcares e a raspa de laranja e bata por alguns minutos até obter uma mistura homogénea e clara.
Acrescente um ovo de cada vez, batendo um minuto após cada adição, até que estejam bem incorporados e acrescente o extracto de baunilha.
Diminua a velocidade da batedeira e misture o puré de abóbora e o buttermilk. Pode acontecer que a massa talhe, neste momento, mas continue a receita sem problemas.
Com a batedeira em velocidade média, junte os ingredientes secos de forma lenta e constante e bata apenas até que não se veja farinha na massa. Não deve bater de mais, por isso, se quiser, em vez da batedeira pode usar uma espátula.
Com a espátula junte as nozes, as passas e o chocolate.
Divida a massa pelas formas e polvilhe com as sementes de girassol.
Leve a assar durante cerca de 25 minutos (no meu forno, com ventilador, demorou 15 minutos). Faça o teste do palito e estando cozidos retire o tabuleiro do forno e deixe esfriar na forma por 10 minutos.
Desenforme e deixe arrefecer sobre uma grade.
Sirva mornos, com ou sem manteiga, ou á temperatura ambiente. Ficam melhores se comidos no dia em que são feitos, mas pode guardá-los até ao dia seguinte numa caixa hermética.
Congele os restantes até dois meses e reaqueça-os no forno ligado a 180º por alguns minutos, ou, se não tiver usado forma de papel, aqueça-os na torradeira cortados a meio.


Esta receita foi a última proposta do "Dorie às Sextas". Uns muffins cheios de sabor de Outono que recomendo vivamente. E com eles acabei por participar no "Convidei Para Jantar", promovido pela Ana e este mês recebido na casa da "Alice na Cozinha Maravilha", que nos convidou a abrir a porta de nossas casas à realeza.

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