29 de outubro de 2010

Do reino das memórias para o Reino da Prússia

Sofia,
Quando vi o teu desafio achei-o simplesmente delicioso, ou não estivéssemos nós a falar de comidinhas, iguarias e afins, tudo bem temperado de doces memórias. E começando a rebuscar as minhas pequenas estórias acabei por descobrir que nas minhas memórias de infância existem inúmeras referências a sabores e aromas, por isso não vou aqui contar nenhuma estória, mas partilhar essas memórias que me são tão queridas. 
São as memórias das férias passadas em casa da minha madrinha, onde a minha avó me acordava com um pequeno-almoço na cama. Uma chávena de café (de cafeteira) e um pão com manteiga. Nunca gostei de café com leite, pelo menos das chávenas almoçadeiras de café com leite que se davam às crianças naquela altura. Ainda hoje o muito que consigo tomar é um pingo directo, já a meia de leite ou galão, nem pensar. Mas aquele cafézinho de borra e eu a molhar o pão no café...hummmm. E à hora do almoço? Lá vinha a avozinha fazer o meu prato favorito: bife com ovo a cavalo e batatas fritas, numa frigideira pequena, preta de tanto uso, onde as batatas eram embebidas em pouco óleo e aí fritavam, reviradas vezes sem conta com um garfo até estarem tostadinhas. Batata frita igual nunca mais comi, desde então. E era o arroz, cozido num caldo bem apurado: estala-se a cebola, deita-se um pouco de água, apura-se, mais um pouco de água, apura novamente, só então a água necessária, mais uma boa fervura e entra o arroz e novamente ferve a água e só então se reduz o lume para o mínimo. Está pronto o arroz, mas o almoço está atrasado: embrulha-se o tacho em papel de jornal até à hora de servir.
São as memórias da Páscoa e do arroz de cabidela e do Pão-de-Ló molhado num cálice de vinho do Porto (nesta altura o Pão-de-Ló era o único doce festivo que comia).
Das mesas de festa, com a toalha de linho e a louça de porcelana, religiosamente guardada nos armários para as ocasiões especiais.
São as memórias das larocas que o meu pai trazia da casa da mãe, minha avó paterna.
Da mercearia que ela tinha, com o balcão comprido e a balança de pesos. O quarteirão de broa de milho (como eu gostava da côdea dura), o bacalhau salgado empilhado e cortado ao gosto da freguesa. Conta aponte no Livro para ser paga ao fim do mês.
São as memórias das sandes de batatas fritas.
Das constipações e do chá de limão, que ainda hoje não suporto. 
Era a sopa com pedacinhos de cebola, que eu, esquisita, rejeitava, resmungando, que isto tem cebola e eu não gosto e a desculpa esfarrapada: não tem nada, caiu um bocadinho na panela quando estava a fazer o arroz.
São as memórias dos passeios de escola, de cesto de pic-nic recheado de coisas boas preparadas de véspera: o frango assado, panados, croquetes de batata que faziam um furor e eu orgulhosa porque tinham sido feitos pela minha mãe.
Era o pão doce coberto de açúcar que a minha mãe trazia da feira dos Carvalhos, à Quarta-Feira. 
As visitas a casa dos tios em Guimarães, que logo se apressavam a descer à adega para ir buscar um bom salpicão e o vinho tinto que serviam na malga. Salpicão que eu não comia e vinho que não bebia, mas ficava a observar o ritual e a alegria que reinava à volta da mesa.
São as memórias das primeiras incursões culinárias (doçaria, pois claro): salame de chocolate, mousse de chocolate e uma taça de camadas de mousse de chocolate, natas e bolacha ralada. 
Era o caderno de receitas da minha mãe, escrito à mão, com receitas que me punham a sonhar.
São as memórias das minhas raízes gastronómicas. Memórias que andam à solta e de vez em quando lá vem uma fazer uma visitinha, obrigando-me a recriar tais sabores e eu obedeço com um prazer desmedido. E é também com prazer desmedido que partilho estas minhas memórias com os habitantes do Reino da Prússia, esperando que este seja apenas o primeiro de muitos anos de partilha de receitas e de memórias.
Parabéns Sofia no Reino da Prússia!

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