5 de abril de 2010

Páscoa pelo Douro


O Douro é um pequeno fascinio que tenho desde pequenina. A imagem do rio passando de mansinho entre as margens de Gaia e Porto, reflectindo a imagem da Ponte D. Luís e da Ponte da Arrábida e o casario das Ribeiras é uma imagem que trago comigo de raiz. Quis o destino que a minha vida profissional acabasse por me ligar ainda mais à paisagem duriense e a descoberta de outras margens do Douro intensificou esse fascinio. 
Que me desculpe quem habita as margens de outros rios, que serão bonitos com certeza, não lhes diminuo a beleza e bem que até os admiro,  mas o Douro, para mim, é de uma beleza sem igual. E se bem que goste de passear pelo nosso Portugal, descobrindo e redescobrindo os seus recantos, sempre que posso dou uma escapadela ao Douro. 
Foi o que fiz este fim-de-semana prolongado. Com vontade e necessidade de parar um pouco da correria de todos os dias e sem força para viajar para muito longe, fiz as malas e parti.

Primeiro dia de Viagem. Sexta-feira Santa. Rumo à A4, saindo em Amarante e percorrendo a EN 101 espera-nos a primeira paragem: Mesão Frio. Está frio e ora chove, ora faz sol. Em Mesão Frio é dia de feira. Vamos lá espreitar. Há muito tempo que não vou à feira, embora tenha perto a dos Carvalhos todas as quartas-feiras. Baratissimo o morango e o kiwi, regressasse nesse dia a casa e levaria o carro carregadinho. Demos uma voltinha pela vila, pelas suas ruas estreitinhas e casas brancas de varandas de ferro forjado.
Estamos na hora de almoço, a fome começa a apertar, mas aguentamos mais um bocadinho. Vamos voltar à  estrada. Curva após curva o Douro acompanha-nos o trajecto. As amendoeiras surgem dispersas já cobertas de flor, fazendo lembrar flocos de neve. Vamos parar na Régua para comer qualquer coisa. Sempre tive a ideia que para comer bem na Régua é preciso pagar caro e de facto mais uma vez se confirmou: num restaurante pequenino, que estava quase cheio, escolhemos a dourada na brasa com batata a murro. Como nos foi dito que a dourada era de tamanho jeitoso e bastante para duas pessoas pedimos apenas um prato. Bom...saiu-nos uma dourada para o pequeno e magrinha que não sei se foi à brasa, mas que de certeza foi à sertã e a batata ressequida (peço a quem passar por aqui e conheça bem a Régua que me diga onde se pode comer bem e a preços acessiveis). Valeu-nos um pastelinho conventual no Café do Cais.
Voltamos à estrada. Temos uma visita a fazer em Gestaçô que nos vai ocupar parte da tarde.
Acabamos o dia a jantar um Bacalhau à Borges na Pensão Borges em Baião.
Segundo dia de viagem. Sábado. Fazemo-nos à estrada depois do pequeno-almoço. Primeira paragem: Ribadouro, no concelho de Baião, onde, no Cais da Pala, o Douro mostra toda a sua masjestade numa imponente curva ladeada de socalcos e arvoredo. Casas e solares pendurados pelas margens do rio. Laranjeiras sem fim. O sol vai dando um ar da sua graça, mas depressa se mostra timido.

O plano de viagem incluía uma visita à Fundação de Eça de Queirós em Tormes, Santa Cruz do Douro, freguesia de Baião. Seguimos pela EN 108 em direcção à Régua até encontrarmos a placa identificativa da Fundação. Uma estrada empedrada leva-nos até ao edificio principal. A casa em pedra acolhe-nos calorosa. O edificio está em muito bem conservado. Passando a entrada um páteo abre-se: do lado esquerdo a capela. Em frente a casa. As visitas são guiadas e depressa estamos a entrar na vida de Eça de Queirós e também no imaginário que lhe guiou a caneta de aparo em "A Cidade e as Serras". Esta é uma visita que aconselho vivamente. Ficamos a conhecer pormenores interessantíssimos da vida de Eça de Queirós e passamos a ter uma vontade quase incontrolável de ler ou reler  o romance que esta casa inspirou. Para a próxima, com melhor tempo, ficará uma visita aos jardins. A Fundação também tem uma casa para turismo e promove os "Almoços Queirosianos" para grupos de 15 pessoas ou mais.
Encantados com esta visita, descemos novamente a Ribadouro. Vamos almoçar a um local já conhecido: a Estalagem de Porto Antigo onde optamos por um salmão grelhado com arroz de ervilhas de quebrar e um leite creme à sobremesa.

Mais uma partida em direcção a Resende. Muito do que queremos ver fica perdido entre parcas indicações na estrada quase resumidas a uma placa indicativa no inicio do percurso (e outra no fim do percurso, em sentido inverso, deixando a amargura de termos perdido algo pelo caminho entre uma ponta e outra), mas não faz mal: também não queremos ver tudo num dia só. Há que deixar alguma coisa para descobrir mais tarde. Ficamo-nos pela Praia Fluvial da Lagariça antes de irmos em busca de outro tesouro, desta feita, gastronómico: as Cavacas de Resende.

De regresso a Porto Antigo, onde vamos pernoitar, ainda passamos pelo centro de Cinfães. Só para ver. Está frio e começa a chover forte com granizo. Vamos recolher ao quente da estalagem. À noite uma refeição ligeira, uma canja de galinha e uma salada aconchega-nos o estômago para uma boa noite sono.

Terceiro e ultimo dia de Viagem. Domingo de Páscoa. O rio está coberto de neblina. Voltamos a Gestaçô para nos despedirmos de um casal amigo. À medida que vamos subindo a encosta, a neblina vai ficando para trás e o céu abre-se num azul esplendoroso. Por todo lado os foguetes anunciam a passagem do Compasso. As familias reunem-se à porta de casa esperando o anúncio da Ressurreição que chega a pé, debaixo do sol, por estradas ermas e ingremes. Depois do almoço de Páscoa, irão ao café da vila antes da despedida. Uns ficam na terra e os outros regressam à cidade ou a outras terras... até para o ano. 
Quanto a nós não dispensamos o anho assado com batatinha e arroz de forno. O regresso a casa é sempre bom. Chegamos mais ricos e cansados da viagem, mas é um cansaço bom...um cansaço que descansa.
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