8 de dezembro de 2011

Pão de chocolate e malagueta




Sílvia entrou na padaria. Se havia uma boa maneira de começar o dia era sentir o cheiro do pão acabado de sair do forno. Todos os dias fazia de questão de comprar pão fresco pela manhã na padaria que ficava perto do local de trabalho. Entrava, absorvia os cheiros e mirava as prateleiras cheias de pão. Todos os dias era sempre tão difícil a escolha. Normalmente escolhia um pão diferente, embora por vezes se deixasse tomar de amores por determinado sabor e cheiro e durante dias optava sempre o mesmo.  Certa manhã deparou-se com um cesto de palhinha forrado com um pano branco cheio de pães de chocolate.  De imediato lhe vieram à memória recordações de infância cheias de aromas e sabores. Não sabia bem o porquê dessa reacção uma vez que nunca tinha comido pão de chocolate, mas viu-se há muitos anos atrás, juntamente com a sua amiguinha do coração, a Mariana. Teriam uns 7 ou 8 anos. Lanchavam em casa da avó Rita, na mesa de ferro posta sob a sombra do velho limoeiro, ao fundo do quintal. Uma toalha de linho e a louça de porcelana, porque queríamos “lanchar como as senhoras crescidas”. A Mariana trouxera pão feito pela avó dela. Ainda vinha morno com o cheiro da lenha do forno onde cozeu. A avó Rita serviu o chá de cidreira, da cidreira que crescia no quintal, as fatias do pão barradas com manteiga e duas fatias pequenas de um bolo de chocolate que fazia como ninguém. Lá ficaram toda a tarde a tagarelar sobre “os trabalhos, os maridos e os filhos”, como se fossem gente crescida. Mimos de avó. O pão e o bolo de chocolate num cumplicidade de uma  amizade infantil. Terá vindo daí a memória, talvez.
Nesse dia não hesitou quando escolheu o pão. Seguiram-se as horas de trabalho e o cheiro do pão bailava-lhe na memória. O melhor pão da avó da Mariana com o melhor bolo de chocolate da avó de Sílvia. O que seria da Mariana? Teria a vida sorrido para ela? Esperava bem que sim. Sílvia desejou que, apesar da distância e da ausência , continuassem a partilhar essa memória de pão e chocolate. Se Sílvia soubesse fazer pão hoje faria um pão de chocolate. O fermento do pão pela amizade e o sabor do chocolate pela cumplicidade e porque a vida é, por vezes tão surpreendente e provocadora, uma pitada de malagueta a acrescentar calor a essas memórias.



Um pão para brindar a boas memórias:
Pão de chocolate e malagueta
(fonte: "200 Receitas de Pão”)

Ingredientes:
250 ml de água
350 de farinha
50 de farinha de milho
3 colheres de sopa de óleo
1 1/2 de chá de sal
1 1/2 de flocos de malagueta
1 colher de chá de canela
75 gr de chocolate negro ralado
2 colheres de sopa de xaropa de agave
1 1/2 de chá de fermento seco

Preparação:
Coloque os ingredientes pela ordem indicada na MFP.
Programe “pão básico” ou “pão normal”.
Quando o programa terminar retire o pão e deixe arrefecer sobre uma grande.

Post Scriptum:

Notas:
- Os nomes e factos do texto são ficcionais.
- Com esta receita participo no desafio “Chocolate e picante: um desafio de receitas com histórias dentro”, promovido pelo blogue “Gourmets Amadores” em parceria com a Casa das Letras.

Se Silvia soubesse fazer pão teria misturado e amassado todos os ingredientes à mão, com tanto empenho e amor quanto a avó de Mariana usava no seu pão ou mesmo a sua avó no bolo de chocolate, mas Silvia, moça moderna, não se sentia com grande queda para estas coisas da culinária com mais complexidade, por isso, tal como a sua avó louvou as modernices que eram, no seu tempo, a máquina de lavar roupa e o fogão eléctrico, entre outras coisas, e comprou uma máquina de fazer pão.
Enquanto o pão amassava, levedava e cozia, aqueceu, quase até à ebulição, uma quantidade generosa de água e deitou umas quantas folhas de cidreira. Deixou a infusão abrir e tomar todos os seus sabores. Dirigiu-se à sala e retirou do fundo de uma gaveta um album de fotografias. Via-se, pela capa, que já era antigo. Abriu-o e começou a folhear até encontrar aquela fotografia das duas meninas , lanchando à sombra de um limoeiro. Lá estavam elas, o pão e o bolo. Que bom a vida ter-lhe providenciado tão boas memórias!
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