5 de julho de 2012

Creme de Lentilhas e cenoura para uma mente brilhante


Já tinha falado dele aqui e a propósito deste mesmo sitio, onde o fui encontrar recentemente. E desta visita a este lugar encantado da cidade do Porto, surgiu a certeza de quem havia de ser o meu convidado para mais uma edição do "Convidei para jantar" promovido pela Ana e este mês recebido pela Sofia, no seu Reino da Prússia.
Um desafio difícil, este de convidar uma "mente brilhante". Há tantas e tão poucas, nas mais diversas áreas. A minha primeira ideia recaiu nas ciências, a medicina, a química, a física e as mentes brilhantes que descobrem a cura para tantos males, transformam a matéria em equações e até ousam descobrir a "partícula de Deus". Depois deambulei pelas filosofias e pelos pensadores de outrora e actuais, que sem medo, nos apontam os vícios e procuram dar sentido às nossas vivências. E eis que, num Domingo de manhã, rumei ao Museu Contemporâneo de Arte Moderna, no último dia da exposição "Locus Solus. Impressões de Raymond Roussel" e lá estava ele, Marcel Duchamp. Discreto, ía percorrendo as várias salas do museu, e fiquei com a impressão de que procurava ouvir as conversas dos visitantes, os comentário que faziam às obras expostas. Não me surpreendi, também eu, no lugar dele, teria a mesma curiosidade. Afinal, Marcel Duchamp foi uma mente brilhante que subverteu as artes visuais. Provocou. Quebrou regras. Passou para a tela ideias, movimento, profundidade. Questionou-se: "Can one make works of art which are not "of art?".
Deixou as telas e lançou-se na produção dos seus "readymades". Arte que não é "de arte". Arte feita a partir dos objectos quotidianos e que nos questiona, obriga a pensar e até a participar na obra.
Ganhei coragem e perguntei se não quereria jantar lá em casa. Primeiro surpreendido, depois divertido, lá aceitou, mas só se fosse qualquer coisa leve, que os tempos de boémia, comeres e beberes já lá iam.
Já ao jantar acabaria por contar, divertido, como as pessoas da sua época se escandalizaram com a sua audácia. Até alguns dos seus pares achavam que ele estava a ironizar e a depreciar a arte. Então o episódio da "Fountaine" foi hilariante, dizia ele, "e, afinal, foi só o começo, não achas?".
Concordei, mas a verdade é que se tudo se tivesse passado hoje as reacções teriam sido semelhantes
- "Eu sei. Apercebi-me enquanto ouvia os comentários às exposições, hoje, mas o importante é questionar, sabes? Não se limitar a aceitar que o correcto é o que é previamente estabelecido por outros. Foi o que fiz. Questionei-me... e confrontei os demais com as minhas questões. Grande parte poderá não ter gostado, poderá não considerar arte o que fiz, mas pelo menos provoquei reacções."
E na despedida, restou-me agradecer a sua ousadia, porque graças a ela entro num Museu como que num espaço encantado, onde tudo pode acontecer e onde a indiferença não tem lugar.

Se quiserem saber mais sobre a vida e obra de Marcel Duchamp, não deixem de passar por aqui.

Creme de lentilhas e cenoura
Ingredientes:
1/2 chávena de lentilhas
2 cenouras
1 fatia de abóbora menina
1 cebola
1 dente de alho
1 caldo de legumes
Sal q.b.
Azeite q.b.
Cebolinho

Preparação:
Tradicional:
Pinte o fundo de uma panela com azeite e acrescente a cebola em pedaços pequenos, o dente de alho esmagado e as cenouras descascadas e às rodelas.
Deixe refogar em lume brando e com a panela tapada até os legumes começarem a ficar transparente, mas sem deixar queimar.
Acrescente a courgete às rodelas (com ou sem casca, como preferir), a abóbora em cubos, as lentilhas e o caldo de legumes.
Junte 1 litro de água e deixe cozer em lume médio até os legumes se apresentarem macios.
No fim rectifique o sal e verifique a consistência do creme, acrescentado água se necessário e, nesse caso, deixando levantar fervura novamente.
Sirva com cebolinho picado.
Bimby:
No copo da bimby coloque o azeite, a cebola em pedaços, o dente de alho esmagado e as cenouras descacadas e às rodelas.
Triture 5 seg/vel. 5 (ou até ouvir a mudança de ruido).Faça descer os legumes que ficaram na parede do copo com a espátula e programe: 5 minutos/100º/vel. 1.
Acrescente a courgete às rodelas (com ou sem casca, como preferir), a abóboara em cubos, as lentilhas e o caldo de legumes.
Junte 1 litro de água e programe: 25 minutos/100º/colher inversa/vel. 1.
No fim rectifique o sal e verifique a consistência do creme, acrescentado água se necessário e, nesse caso, programando: 5 minutos/100º/vel. 1.
Sirva com cebolinho picado.

14 comentários:

angela disse...

Adorei o texto!

saboracasa disse...

Fantástica sugestão. E totalmente de acordo devemos sempre questionar e dar a nossa opinião - de uma forma construtiva e educada, claro.

Excelente sugestão, bem cremosa :)

Sofia.Lopez disse...

Olá Carla,
Concordo contigo que deve ter sido um desafio, no verdadeiro sentido da palavra, escolher apenas um.
Confesso que não conhecia o teu convidado, já fui espreitar nos links que sugeriste, e contigo já aprendi algo mais. Obrigada por este momento!
Gostei imenso do texto, do vosso diálogo e de como nos mostraste a tua admiração por ele e pela arte.
O creme foi uma deliciosa escolha, ficou com uma cor lindíssima! Gostei muito e acredito que ele também ;)
Lindas fotos numa excelente participação.
Beijinho

Joana disse...

Eu adoro lentilhas e faço imensas vezes sopa de lentilhas, principalmente no Inverno e com uma boa quantidade de caril :)

Beijinhos e um bom resto de dia :)

Anónimo disse...

Entre sorrisos e um bem estar, posso dizer que seu post é completo. Ele une um texto solto, gostoso de ler, uma gama de informações prazerosas e um sabor de creme de lentilhas e cenoura fabuloso. Gosto de vivem sem pré-estabelecimentos e me agrada saber que não sou a única, que podemos ousar e rotular sem rótulos. Adorei mesmo a prosa. Parabéns.

Ginja disse...

Adorei ler-te! Também eu estou a sentir dificuldade em escolher uma mente brilhante. Tantas e tão poucas, como dizes.
Gosto de arte, mas percebo pouco para falar dela, embora goste de me questionar, não aceitar o que é pré dito e pré aceite. Gosto de me envolver na obra e sentir algo meu.
Conheço pouco do Duchamp. Mas adorei o teu texto e o teu creme. Perfeita e deliciosa participação.
Beijinho.

Anónimo disse...

Uma mente ousada e brilhante por isso. A sociedade tem a tendência em acomodar-se. Ainda bem que de vez em quando existem alguns Marcel Duchamp para abalar o esabelecido. Serviste-o muito bem. Um verdadeiro aconchego.
Um abraço.
Patrícia

A Delicodoce disse...

Adorei o texto e o teu creme está com um aspeto delicioso.
Bj.

Ondina Maria disse...

Uma mente bem brilhante. E aposto que saiu de tua casa bem reconfortado com esse belo creme. Sim, porque detrás de uma mente brilhante está sempre um estômago bem forrado :)

Conceição Pimentel e Elizabete Pimentel disse...

Adoro essa sopinha, a sua deve ter ficado deliciosa, pelo aspecto logo se vê.

Tenha um excelente fim de semana, bjs

Tanita disse...

Ando por aqui a ganhar inspiração para preparar umas coisas deliciosas para a festa de anos do meu filhote. Bj**

Conceição Pimentel e Elizabete Pimentel disse...

Tem um aspecto bem apetecível. Deve ter ficado uma delícia.

Bjs. e boa semana

CRIKA disse...

Hummm adorei a receita e a sua foto ficou incrível, linda deu "água na boca" como costumamos dizer aqui no Brasil!!! Bjks

Lenita disse...

Que delicia é este projeto!
Adorei o teu convidado, mas gostei ainda mais do teu texto!
As fotos lindas, tudo maravilhoso. Parabéns!
Bjs

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