domingo, 16 de Dezembro de 2012

Convidei Para Jantar - Uma cidade com pronúncia


Porto visto de Gaia
 Quando a Marmita lançou o desafio para a nova edição do "Convidei Para Jantar" percorri mentalmente as cidades que conheço e das quais guardo belas recordações. Passei pelas cidades portuguesas, de Bragança até Faro, passei pelas ilhas, entre as cidades do Faial e Angra do Heroísmo, passei pelas ruínas de Roma e pelo Carnaval de Veneza, subi à Torre Eiffel, atravessei o oceano para recordar a subtil decadência de Havana, de regresso dei um pulo a Espanha, balançando entre Madrid e Barcelona, mas em cada paragem havia um regresso esperado e ansiado e aí soube logo quem iria ser a minha convidada.


Ponto D. Luís I

Pormenor da Ponte D. Luís I

Não é novidade para ninguém, porque já aqui o disse, que tenho um sentimento especial pelo Porto. O Porto é a minha cidade, embora, verdade seja dita, nunca nela tenha vivido, mas é o prolongamento inevitável da outra margem - Vila Nova de Gaia. Polémicas e politicas à parte, para mim não há Porto e Gaia. Há duas margens unidas por uma ponte (ou seis pontes), porque durante toda a minha vida o meu sentido convergente natural era o Porto. 


O Porto também é um porto

Do outro lado, Gaia - Mosteiro da Serra do Pilar



























O Cubo da Ribeira, de José Rodrigues e S. João Baptista, de João Cutileiro

 

Aqui nasceu José Luís Gomes de Sá



Igreja de S. Francisco

 Num tempo pré-shoping, a baixa do Porto era o Centro Comercial mais procurado. Sempre que era preciso comprar tecidos, roupa ou sapatos, marcava-se o tradicional passeio de sábado de manhã para ir às compras e ver as montras. A viagem de autocarro durava cerca de 30 minutos (camioneta, era assim que chamávamos, autocarros eram só os da STCP), atravessava a ponte D. Luís e no fim guardava os bilhetes coloridos para coleccionar. Depois era a Rua de Santa Catarina e de 31 de Janeiro (antes de Stº António, o meu santo das aflições, que o S. João é o das folias), com as suas lojas de paragem obrigatória, a fervilhar de gente. As Galerias Palladium, um armazém ao estilo do El Corte Inglés, na esquina de Santa Catarina com a Rua Passos Manuel  (o edifício actualmente alberga a "C&A" e a Fnac e no seu relógio, a cada três horas, quatro personalidades que marcaram o Porto, S. João, Infante D. Henrique, Almeida Garret e Camilo castelo Branco, saúdam os transeuntes), com a sua secção de discos de vinil. As idas ao cinema no Natal, ora no Batalha (sim, o da expressão "vai no Batalha", isto é, "deve ser filme, não", quando alguma situação nos parece fantasiosa), ora no Águia Douro e o circo no Coliseu, a que fui uma vez e trouxe apenas a recordação dos cãezinhos amestrados. As pipocas a estalar e o algodão doce a derreter pela mão abaixo.

R. de Santa Catarina, numa manhã azul
 Enquanto estudante o Porto entrava no meu dia pela manhã, bem cedo. Recordo-me das tantas vezes que atravessei a ponde D. Luís a pé, tanto era o trânsito matinal, em manhãs frias a marcar 0º. Recordo-me de descer a rua 31 de Janeiro a correr para não perder o autocarro. De a voltar a subir a passo apressado para regressar a casa. E, quando já no mundo do trabalho, depois de me apear do comboio na estação de S. Bento, tantas vezes, nas manhãs vazias, conseguia escutar os meus passos na calçada, não obstante o ruído dos automóveis. Era eu e a cidade. Eu e o Porto. 

E se gosto de dias azuis, não posso deixar de gostar do Porto cinzento. O céu azul também lhe fica bem, mas há dias que até parece que demasiada luz lhe trespassa a alma e o Porto é uma cidade com alma e de gente de alma, arrebatadora como a pronuncia do Norte e como o granito que sustenta a cidade.


Torre dos Clérigos
Gosto de ser turista nesta cidade. De calcorrear as ruas e jardins, admirar os edifícios monumentais da Avenida dos Aliados, espreitar o mercado do Bolhão, e, nos dias mais gulosos, passar de propósito, sem qualquer desculpa, pela Padaria Ribeiro para comprar biscoitos, de comer um mini eclair de limão a acompanhar um café na Leitaria da Quinta do Paço ou um "Quente e Frio" na Gelataria Sincelo, ou, porque não, uma tarte de framboesa na Cunha. E se os dias não são gulosos, mas a fome aperta, um rissol na Império e se são de convívio uma francesinha no "Capa Negra". O Porto é gastronómico, aqui nasceu o famoso Bacalhau à Gomes de Sá e a dita Francesinha e o Porto é assim, uma cidade de bons comeres, provavelmente desde o dia em que o povo encheu as naus do Infante D. Henrique de mantimentos, ficando-se apenas com as miudezas dos animais e com as tripas. Deste acontecimento nasceu a alcunha de "tripeiros" e as famosas tripas á moda do Porto, iguaria que não aprecio de todo, mas, enfim, ninguém é perfeito, mas pior seria se não fosse portista.
 
Jardim da Cordoaria

Mercado do Bolhão
Sou eu assim, também, tripeira e com pronúncia do Norte e porque este desafio é um desafio de amigos, convido-vos a comer comigo, mais uma vez, uma francesinha, cuja receita deixo aqui novamente, mas com a pronuncia merecida (os "vês" pelos "bês", mas nem sempre o contrário).

O molho:
1 sopa de rabo de boi
1 sopa de creme de marisco
0,5 lt de polpa de tomate
0,5 lt de água
Sal q.b. 
50 gr. de Molho Inglês
Piri-piri q.b.
1 copo de whiskey
1 copo de bodka

Prepare as sopas separadamente.
Num tacho ou panela grande deite as sopas já preparadas e acrescente todos os restantes ingredientes. Deixe ferber em lume brando até o molho diminuir em quantidade e engrossar. Bá probando e acertando os temperos a seu gosto. Mais piri-piri, mais whiskey, teste outra bebida a seu gosto...

Entretanto prepare a Francesinha:
1 fatia de pão de forma (não muito grossa -  há quem prefira tostar o pão antes)
1 fatia de paio
1 fatia de fiambre
Bife grelhado
Linguiça grelhada
Mais fiambre
Outra fatia de pão
Agora cubra esta sanduiche com fatias de queijo e lebe, no prato em que bai serbir, ao forno pré-aquecido para derreter o queijo.
Cubra com uma quantidade generosa de molho e sirba.

Tenha cuidado para não queimar o queijo, o bife ou as linguiças e mesmo o pão, se decidir tostá-lo antes. Por muito bom que fique o molho é sempre desagradábel o sabor do "torrado".

Bom apetite e não se esqueça de chamar os amigos para esta iguaria que requer sempre boa disposição e companhia para ser bem serbida e apreciada.
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