29 de setembro de 2013

Ausências / Absences

“E voltou a rir.
-É como se, em vez de estrelas, te desse quinhentos milhões de guizinhos a rir!
E voltou a rir. Depois, tornou a ficar sério e disse:
- Esta noite… Vê lá se entendes… Não venhas comigo.
- Não te vou deixar sozinho!
- Mas há-de parecer que me dói muito…Há-de parecer que estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver, não vale a pena.
- Não te vou deixar sozinho!
(….)
À noite, não o senti partir. Escapou-se de ao pé de mim sem fazer barulho. Quando consegui apanhá-lo, ia a andar num passo rápido e decidido. Só disse:
- Ah! Estás aí…
E deu-me a mão. Mas continuava preocupado:
-  Fizeste mal. Vais ter pena. Vai parecer que eu estou morto e não é verdade…
Eu continuava calado.
- Percebes?... É que é muito longe e eu não posso levar este corpo… É pesado demais…
(…)
E também ele se calou porque estava a chorar…
-É ali... Deixa-me dar um passo sozinho.
E sentou-se, com medo. Mas disse:
- Tenho de ir ter com a minha flor, percebes? Eu sou responsável por ela. E ela é tão fraca! E tão ingénua! Só tem quatro espinhos insignificantes para se defender de tudo…
Eu também me sentei: não me segurava de pé. O principezinho disse:
-Pronto…
Ainda hesitou, mas acabou por se levantar. Deu um passo. Eu, eu não consegui fazer um gesto.
Foi só um clarão amarelo no tornozelo. Ficou parado um instante. Não gritou. Caiu de mansinho, como caem as árvores. Nem sequer fez barulho por causa da areia.
(…)
Depois, fui-me consolando. Enfim… quase. Mas tenho a certeza absoluta de que o principezinho voltou para o planeta dele: ao nascer do dia, não encontrei corpo nenhum. Afinal, não era tão pesado como isso… E, à noite, gosto de me pôr a ouvir as estrelas. São mesmo quinhentos milhões de guizinhos… “

In “O Principezinho”, Antoine de Saint-Exupéry , Editorial Presença
 
The above text is an excerpt taken from the book "The Little Prince" by Antoine de Saint Exupéry

 
A vida é uma manta de retalhos colorida que começa a ser tecida quando nascemos. A cada ano, a cada dia, um retalho mais: pessoas, momentos, objectos, músicas, aromas. São marcas que se unem em elos de ADN emocional. É o que somos em cada momento. Por vezes esses retalhos mancham-se, rompem-se, rasgam-se. Alguns são substituídos por outros novos, sem causarem grandes consequências, mas outros são perdas insubstituíveis. São um nó de dor na garganta, no estômago, no coração. São ausências definitivas.

Estes últimos dias foram marcados assim, pela dor, pela ausência. Um retalho rasgado na minha manta. Um retalho insubstituível, mas que acredito que o tempo vai ajudar a remendar, lentamente, cosendo-o com linhas de saudade de um “até sempre”, apaziguando a dor, preenchendo-o de lembranças felizes, fazendo-me crer que há mais uma estrela a brilhar no céu para mim.
Têm sido, assim, os dias, tristes, lentos, cinzentos, desorientados. Aos poucos retomo as rotinas. Aos poucos o blogue voltará ao seu ritmo. Obrigada por se manterem aí, desse lado.
 
In English
 
Life is a colorful patchwork quilt which begins to be woven at our birth. Every year, every day, a new patch: people, moments, things, music, perfumes Are trademarks united in bonds of emotional DNA. It is what we are in each moment. Sometimes these spots flaps up, break up, tear up. Some are replaced by new ones, without causing major consequences, but others are irreplaceable losses. Are  a knot of pain in the throat, stomach, heart. Are definitive absences.

These last few days have been so, marked by pain, by their absence. A retail ripped of from my blanket. A irreplaceable retail, but I believe that time will help mending slowly sewing it with lines of longing for a "until forever" appeasing the pain, filling it with happy memories, making me believe that there is one more star shining in the sky for me.

Have thus been these last days, sad, slow, gray, bewildered. Gradually I return to my routines. Gradually the blog will return to its rhythm. Thanks for sticking around.
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